terça-feira, 3 de maio de 2011

No dia da imprensa livre...

Rádio Santa Marta é fechada e comunicadores populares são detidos

Rádio Santa MartaDa Rede Nacional de Joralistas Populares
Na manhã desta terça-feira (3/5), a rádio comunitária Santa Marta, localizada na comunidade de mesmo nome, em Botafogo, zona Sul do Rio, foi fechada em uma ação da Polícia Federal e da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Os agentes lacraram todos os equipamentos e levaram o transmissor. Rapper Fiell (Emerson Claudio Nascimento) e Antonio Carlos Peixe, os diretores da emissora, foram levados pelos agentes para as dependências da Polícia Federal, na Praça Mauá, Rio. Parece ironia, mas a ação repressora que fechou a rádio comunitária do morro carioca ocorreu no Dia Mundial de Liberdade de Imprensa, decretado pela ONU em 1993.
A rádio comunitária Santa Marta foi construída de forma coletiva por moradores de diversas comunidades. Por ser uma conquista dos trabalhadores, recebeu as doações de equipamentos para o seu funcionamento: computadores, móveis e cursos de capacitação para os locutores e colaboradores da rádio - todos moradores da favela Santa Marta. (Leia aqui). Os participantes da emissora estavam preparando toda a documentação para entrar com o pedido de autorização de funcionamento ao Ministério das Comunicações.
Rapper Fiell, um dos detidos na operação, é um atuante ativista do movimento social. Já lançou dois CDs e produziu um curta-metragem sobre o morro carioca: o 788. Este último foi ganhador de dois prêmios, um nacional e outro na Holanda. Faz rádio livre e comunicação popular há pouco mais de um ano. Ele é conhecido dos movimentos sociais por sua militância em defesa dos direitos dos trabalhadores e dos moradores de favelas. Em reconhecimento a seu trabalho, no dia 19 de abril ministrou aula para alunos do curso de Ciências Sociais da UFRJ, a convite do sociólogo Luiz Antonio Machado da Silva. Cultura da favela, hip hop e comunicação comunitária foram os temas da aula.
Essa não é a primeira vez que o militante é vítima da criminalização por parte do Estado. Em maio do ano passado, ele foi preso e espancado por policiais que invadiram o bar de seu sogro no morro Santa Marta e obrigaram os presentes a encerrar o tradicional pagode que ocorre no local. Na ocasião, Fiell pegou o microfone e começou a ler a lei do silêncio. Ao invés de pedirem para abaixar o som, os policiais saíram desligando tudo. “Depois disso, me deram voz de prisão, me arrastaram de cima do palco e começaram a me espancar”, contou na época.
Foi para evitar esse e outros abusos de poder dos agentes das chamadas Unidades de Polícia “Pacificadora” (UPPs) que Fiell elaborou uma cartilha sobre abordagem policial. À época, o rapper e outros moradores já denunciavam a truculência da polícia no trato cotidiano com os moradores. Entidades de defesa dos direitos humanos e organizações populares se manifestam nesse momento contra a ação repressora da Polícia Federal e da Anatel, que vem se repetindo pelo Brasil inteiro e agora chega até o morro carioca, calando o espaço que ajudaram a construir para erguer sua voz.
Para conhecer a história da rádio Santa Marta: http://migre.me/4qzQb

segunda-feira, 18 de abril de 2011

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Concentração para criação dos cargos do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura/RJ


Essa atividade é IMPORTANTÍSSIMA!

8 motivos para ir à Alerj no dia 12 (próxima terça) às 15hs:
1) A lei que cria o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura foi construída de forma extremamente democrática e coletiva, toda em conformidade com o Protocolo da ONU que o Brasil assinou em 2007; 
2) Foi votada em plenária, aprovada, sancionada em junho/2010; 
3) O orçamento para o Mecanismo foi igualmente aprovado na Alerj; 
4) O Comitê de Prevenção e Combate à Tortura/RJ, criado pela mesma lei, já está em pleno funcionamento; 
5) Os membros para o Mecanismo passaram por uma rígida seleção entre centenas de currículos, tendo sido criteriosa e claramente escolhidos, votados e eleitos de forma integralmente transparente e pública pelos 16 membros do Comitê; 
6) Sua posse estava prevista para o dia 07 de fevereiro... Tudo para que esse grupo possa, legitimamente, de forma autônoma e comprometida com a vida, monitorar e fiscalizar locais de privação de liberdade a qualquer momento, coletando denúncias e propondo modos de prevenir que a terrível prática da tortura, tão naturalizada em locais de privação de liberdade no nosso país, aconteça.
7) E então, quando a simples criação de cargos tem de ser feita pela mesa diretora da Alerj (uma questão burocrática e, a princípio, simples - são apenas SEIS cargos!!!), três deputados pedem "vistas" a respeito do processo de implementação do Mecanismo, protelando o início do funcionamento do que é um instrumento pioneiro no Brasil e um fato histórico, na medida em que o Rio é o primeiro estado a ter o Mecanismo no Brasil, e inclusive vem sendo elogiado pela ONU, pela APT, pela Anistia Internacional e outras organizações internacionais de direitos humanos... é um papelão! 
8) Agora, a criação desses cargos vai para votação em plenária na Alerj na próxima terça, dia 12, e é hora de mobilizar todo mundo para estarmos nas galerias esse dia!!! A lei corre sérios riscos, não podemos deixar um enorme retrocesso acontecer!

Agora que você já sabe o que é o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura/RJ, MOBILIZE muitos companheiros, amigos, vizinhos para virem! Associações e grupos de familiares de presos ou quaisquer que estejam privados de liberdade (DEGASE, manicômios, etc.) precisam saber que isso está acontecendo e precisamos da pressão popular! 

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Concentração em Defesa do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura/RJ
Dia 12/04 (3a feira) às 15h na escadaria da ALERJ

O estado do Rio de Janeiro foi pioneiro na implantação do Comitê Estadual para a Prevenção e o Combate à Tortura e do MecanismoEstadual de Prevenção e Combate à Tortura, que consistem em ferramentas para o enfrentamento às violações dos direitos humanos das pessoas sujeitas à privação de liberdade, seja no sistema prisional, sócio-educativo, manicômios judiciários e outras instituições totais. 

A lei Estadual 5778/10, que os institui, foi sancionada em 30 de junho de 2010. No dia 11 de Novembro de 2010 foi publicado o edital que dispunha sobre o processo de seleção dos membros do Mecanismo, cuja eleição foi realizada pelo Comitê de Prevenção à Tortura no dia 09 de dezembro do mesmo ano. O edital previa a posse dos membros no dia sete de fevereiro de 2011, o que, no entanto, não ocorreu.Para a surpresa de todos, em 16 de Março de 2011, ao ser apresentado o Projeto Resolução nº 83/2011 que cria os seis cargos doMecanismo, alguns deputados membros da Mesa Diretora da ALERJ questionaram o projeto, o que voltou a ocorrer na reunião do dia 31 de Março de 2011. Após o debate, foi aprovado o encaminhamento do Projeto de Resolução nº 83/2011 à plenária da ALERJ, quando será colocado em votação.

Como há uma forte reação por parte de alguns deputados, é extremamente importante que todos os militantes sociais participem da sessão plenária da ALERJ, efetivando a organização da sociedade contra a reiterada prática de tortura que permanece permeando nossa sociedade e se apresentando de forma ainda mais grave ao ser praticada por agentes do Estado em unidades de privação de liberdade.

O projeto de resolução que cria os cargos do mecanismo estará em pauta no plenário da Alerj na próxima terça-feira, dia 12 de abril. A concentração de todos  que lutam pela aprovação do projeto será às 15h na escadaria da ALERJ, aonde permaneceremos até o final da sessão plenária.
 Venha de calça, sapato e traga seu documento!
Dia 12/04 (3a feira) às 15h na escadaria da ALERJ

O estado do Rio de Janeiro foi pioneiro na implantação do Comitê Estadual para a Prevenção e o Combate à Tortura e do MecanismoEstadual de Prevenção e Combate à Tortura, que consistem em ferramentas para o enfrentamento às violações dos direitos humanos das pessoas sujeitas à privação de liberdade, seja no sistema prisional, sócio-educativo, manicômios judiciários e outras instituições totais. 

A lei Estadual 5778/10, que os institui, foi sancionada em 30 de junho de 2010. No dia 11 de Novembro de 2010 foi publicado o edital que dispunha sobre o processo de seleção dos membros do Mecanismo, cuja eleição foi realizada pelo Comitê de Prevenção à Tortura no dia 09 de dezembro do mesmo ano. O edital previa a posse dos membros no dia sete de fevereiro de 2011, o que, no entanto, não ocorreu.Para a surpresa de todos, em 16 de Março de 2011, ao ser apresentado o Projeto Resolução nº 83/2011 que cria os seis cargos doMecanismo, alguns deputados membros da Mesa Diretora da ALERJ questionaram o projeto, o que voltou a ocorrer na reunião do dia 31 de Março de 2011. Após o debate, foi aprovado o encaminhamento do Projeto de Resolução nº 83/2011 à plenária da ALERJ, quando será colocado em votação.

Como há uma forte reação por parte de alguns deputados, é extremamente importante que todos os militantes sociais participem da sessão plenária da ALERJ, efetivando a organização da sociedade contra a reiterada prática de tortura que permanece permeando nossa sociedade e se apresentando de forma ainda mais grave ao ser praticada por agentes do Estado em unidades de privação de liberdade.

O projeto de resolução que cria os cargos do mecanismo estará em pauta no plenário da Alerj na próxima terça-feira, dia 12 de abril. A concentração de todos  que lutam pela aprovação do projeto será às 15h na escadaria da ALERJ, aonde permaneceremos até o final da sessão plenária.
 Venha de calça, sapato e traga seu documento!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Para salvar o passado do esquecimento





O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

                                 Walter Benjamin
 

É fato público, notório e vergonhoso que o Brasil é o país mais atrasado do Cone Sul em matéria de direitos humanos. Enquanto países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai, promoveram ações de investigação e condenação de agentes do Estado que participaram de ações repressivas durante seus governos militares, no Brasil sequer houve a abertura dos arquivos da ditadura.

Antenado a tal debate, o CDDH promoveu no dia 01 de dezembro de 2010, em Petrópolis, um ato-evento em comemoração dos 25 de lançamento do livro Brasil: Nunca Mais. Na ocasião, o CDDH entregou ao prefeito da cidade, Paulo Mustrangi, uma moção para a desapropriação da Casa da Morte, localizada na cidade e considerada por alguns historiadores o pior porão montado pelo regime militar para as práticas de tortura aos opositores do regime. Transformando o antigo espaço no Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis, o CDDH deseja operar a imprescindível tarefa ético-política de salvar o passado do esquecimento, edificando o presente e não acatando a abordagem fatalista de um futuro melhor, preconizada pela famigerada Doutrina de Segurança Nacional que justificava as práticas repressivas do Estado.


Para fortalecer as pressões pela desapropriação da Casa da Morte, lançamos aqui um abaixo-assinado online [http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N7357] e em breve estaremos promovendo uma série de debates públicos, o 'Diálogos CDDH', em torno da temática da abertura dos arquivos da ditadura.

Aqui o link do abaixo-assinado da Campanha pela Criação do Centro de Memória, Verdade e Justiça de Petrópolis.

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N7357


Abaixo outros links de algumas matérias que saíram na mídia e que falam da Casa da Morte.




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Prisões confirmam nossas reiteradas denúncias!

Leia abaixo o excelente texto reproduzido do site de um de nossos parceiros, o Justiça Global, retirado deste link. 
14 de fevereiro de 2011 • 14h21  Destaque

‘Governo do estado deveria ser responsabilizado pelo “garimpo” de policiais’

guilhotina
Operação da Polícia Federal comprovou denúncia das organizações de direitos humanos
A “Operação Guilhotina”, realizada pela Polícia Federal (PF), comprova as denúncias feitas por organizações de direitos humanos e moradores sobre a ocupação policial no Complexo do Alemão e da Penha. Em manifesto divulgado no dia 21 de dezembro de 2010, afirmávamos: “…toda a região está sendo ‘garimpada’ por policiais, no que foi classificado como a ‘caça ao tesouro’ do tráfico”. Na última sexta-feira, escutas telefônicas veiculadas pela imprensa mostraram policiais comparando a região com a Serra Pelada.
Durante visitas às favelas da região, tivemos contato com diversos moradores que tiveram suas casas reviradas e saqueadas. A confirmação dessas denúncias reforça ainda as suspeitas, levantadas também por moradores e organizações de direitos humanos, de que o número de mortos nessa operação foi maior do que aquele oficialmente divulgado.
A ação da PF demonstrou que, assim como no governo anterior, a corrupção continua incrustada na cúpula da polícia fluminense. Essa investigação puxou uma das linhas de um novelo que vai dar no conluio das milícias e seu poder econômico com a máquina do Estado. O fato de mais um policial do alto escalão da Polícia Civil ter sido preso por uma operação da PF – há menos de três anos, outra operação levou o ex-chefe e ex-deputado federal Álvaro Lins para a cadeia – reforça o que as organizações afirmaram em dezembro: “as forças policiais exercem um papel central nas engrenagens do crime. Qualquer análise feita por caminhos fáceis e simplificadores é, portanto, irresponsável.”
Neste sentido, é importante rechaçar mais uma vez o discurso da ‘vitória’ do ‘bem’ contra  o ‘mal’, adotado pelo governo após as ocupações policiais de novembro. A prisão do inspetor que foi transformado em uma espécie de ‘herói’ da mega-operação do Complexo do Alemão em 2007 – que terminou com 19 mortos em apenas um dia – é um claro sinal de alerta para o perigo deste discurso. A tentativa do governo do estado de melhorar a imagem de suas tropas é evidente, mas essa é apenas uma estratégia de propaganda que não altera as condições estruturais que permitem que o crime se organize facilmente por dentro das corporações policiais.
O resultado da Operação Guilhotina reforça, portanto, a necessidade urgente de retomar de forma objetiva o debate sobre a reforma das polícias. Não podemos depender apenas de investigações eficientes da Polícia Federal e, muito menos, de investigações internas que frequentemente são contaminadas pelo corporativismo ou até mesmo por disputas internas. Temos que pensar em novas estruturas que garantam a transparência, a fiscalização e o controle externo e independente da atividade policial.
A Justiça Global acredita que o governo do estado do Rio de Janeiro deve ser responsabilizado pelos roubos e pelas invasões de domicílio praticados por policiais nas favelas do Complexo do Alemão e da Penha. Vamos lembrar que, logo após a ocupação, o coronel Mario Sergio Duarte, comandante da Polícia Militar, foi à imprensa e deu carta branca aos abusos e às violações de direitos na região ao afirmar: “A ordem é vasculhar casa por casa”. Acreditamos que, com as provas levantadas pela PF, o Estado tem obrigação de fazer um pedido de desculpas formal à população local, e de reconhecer e indenizar os danos morais e materiais dos moradores atingidos pela violência estatal.
JUSTIÇA GLOBAL
Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Parceria com a Rádio Santa Marta

No dia 17 de Janeiro de 2011, a equipe do CEAV-RJ esteve no morro Santa Marta em contato com o Rapper Fiell para uma visita a rádio comunitária Santa Marta. A história de persistência para a continuidade da rádio na comunidade e participação coletiva da comunidade serve como exemplo de iniciativas que podem dar certo. Após várias articulações e parcerias entre elas a do CEAV-RJ o projeto vem de maneira eficiente colaborando para mobilização da comunidade em determinadas situações do cotidiano, orientando e acolhendo histórias de violações de direitos. Gentilmente fomos convidados para uma conversa ao vivo durante a programação com o locutor Fábio, onde nos apresentamos e abordamos assuntos direcionados a tragédia ocorrida nos últimos dias na Região Serrana do Rio de Janeiro. O CEAV-RJ demonstrou o seu posicionamento crítico diante dos fatos e colaborou com algumas informações as quais não vêm sendo tratadas nos noticiários como, por exemplo, os anos sucessivos em que a Região Serrana enfrenta problemas com enchentes e desastres. E ainda, a falta de compromisso político na elaboração de planejamentos e ações efetivas direcionando políticas públicas de Habitação para todos os cidadãos. A história se repete e as providências são paliativas, emergenciais, não podemos mais tapar o sol com a peneira.
A visita a Rádio Santa Marta foi apenas um dos muitos passos desta parceria, estamos sintonizados, antenados e unidos para uma construção coletiva forte de lutas contra a violação de Direitos Humanos.


Escute a rádio Santa Marta e participe ao vivo. Telefone : (21) 3062 0662 

 WWW.RADIOSANTAMARTA.COM.BR

email: radiosantamarta@gamil.com


 

 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A gestão precária dos desastres naturais




A mais badalada estação do ano chegou e com ela uma vez mais presenciamos as fortes chuvas que assolam diversas regiões do país, dentre elas a Região Serrana fluminense. Argumentando em favor de uma força descomunal da natureza e da ocupação irregular de morros e encostas, os governos em todas suas instâncias tiram o corpo da jogada. Desresponsabilizando-se do processo histórico governamental, o qual configura o descaso para com as políticas de gestão do solo, prevenção de desastres e habitação, as atuais gestões legitimam o discurso de culpabilização das populações atingidas, em sua grande maioria de rendimentos irrisórios e desassistidas pela gestão precária das políticas públicas. 

O Ceav está atuando nos trabalhos de mobilização solidária aos atingidos pelas chuvas junto ao CDDH, instituição a qual estamos vinculados e que está atuando nos bairros afetados em Petrópolis, e no debate em torno de tal problemática, a exemplo da nossa participação nesta semana em um dos programas da Rádio Santa Marta [futuramente constará aqui no blog um nova postagem da nossa visita à rádio].

Valorizamos intensamente o trabalho emergencial que tem sido realizado por um extensa gama do voluntariado, mas acreditamos fundamentalmente que o trabalho de atendimentos à população durante o processo de reconstrução dos municípios deve ser impulsionado através de políticas públicas, construindo uma rede efetiva de saúde e assistência social que possa dar conta das diversas demandas da população.

Para uma análise mais detalhada da questão, deixamos abaixo dois textos publicados no blog [http://raquelrolnik.wordpress.com/] da urbanista Raquel Rolnik, relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.


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Modificar o modelo de ocupação das cidades brasileiras ainda é possível

Em mais uma entrevista sobre as chuvas e as tragédias das últimas semanas, desta vez para a Agência Brasil, novamente falei da importância da gestão do solo e da necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento urbano e da lógica de organização das nossas cidades. Confiram abaixo.

Obras emergenciais não são suficientes para cidades castigadas pelas chuvas, diz especialista

Luana Lourenço*
Repórter da Agência Brasil

Brasília – A tragédia que atingiu os municípios da região serrana do Rio de Janeiro é resultado da má gestão do solo urbano e pode continuar a se repetir se não houver mudanças estruturais na política de planejamento das cidades. O alerta é da professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo Raquel Rolnik.

Na avaliação da urbanista, que é relatora especial da Organização das Nações Unidas para o Direito à Moradia Adequada, apesar de necessários a curto prazo, os investimentos em obras emergenciais não são capazes de evitar a repetição de desastres.

“Vamos ver prefeitos e governadores anunciando obras, como em todos os anos. E exatamente porque o problema não é esse, as coisas continuarão exatamente como estão. A solução não é a obra, é a lógica de organização das cidades”, disse ela.

De acordo com Raquel, as cenas da última semana em Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, que já foram vistas em Angra dos Reis, em 2010, e em Santa Catarina, em 2008, revelam falhas históricas e estruturais na ocupação de territórios.

“As imagens não mudam porque o modelo de desenvolvimento urbano e a lógica de organização das cidades não mudou. Falta haver uma política para que os municípios tenham, de fato, um planejamento urbano que parta principalmente da gestão do solo”, afirmou Raquel.

Quando se fala em planejamento urbano no Brasil, segundo a urbanista, a pauta é definida basicamente do ponto de vista da construção de obras, e não leva em conta a gestão adequada do solo. As consequências são conhecidas: ocupação de várzeas de rios e construções em encostas de morros, que deveriam servir para amortecer os impactos dos fenômenos climáticos.

“Também falta uma política que controle a expansão ilimitada horizontal das cidades, que é o modelo predominante e que vai impermeabilizar tudo, desmatando tudo, provocando erosão, que vai causando assoreamento e diminuindo o leito dos córregos e dos rios”, disse Raquel.

Segundo Raquel, modificar o modelo de ocupação das cidades brasileiras ainda é possível, mesmo em áreas consolidadas. “Na história das cidades há aquelas que se reinventaram radicalmente, e mais de uma vez. Mas, para isso, é preciso romper com o modelo. E a ruptura não é uma questão técnica, é uma questão política.”.

*Colaborou Marina Bosio

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A gestão e o planejamento do solo parece que não fazem parte da política urbana no Brasil

Ontem à tarde participei do Jornal da Globo News, novamente falando sobre a questão das chuvas. O vídeo está disponível aqui.

A apresentadora Leilane Neubarth começou a entrevista me perguntando o que pode ser feito para mudar essa situação. Segue abaixo a transcrição do trecho inicial:

Essa tragédia tem a ver com o fato de que a ocupação do território se dá de forma completamente negligente. No fundo nós estamos construindo cidades sem nenhuma consideração em relação à vulnerabilidade dos espaços. E quando se fala nisso, imediatamente, as pessoas pensam: “mas por que é que esse povo foi morar em área de risco?”.

Nós precisamos entender que não foi dada nenhuma oportunidade para que os moradores urbanos brasileiros pudessem se instalar num local com qualidade, urbanidade e segurança. Na verdade, a maior parte das nossas cidades foi autoproduzida por seus moradores nos piores lugares, que são os lugares mais baratos, já que o salário dos trabalhadores brasileiros jamais foi suficiente pra cobrir o custo da moradia numa área adequada.

Mas essa tragédia na região serrana do Rio de Janeiro está mostrando que não são só os bairros populares irregulares e autoconstruídos que estão sujeitos a esse tipo de problema. Nós vimos condomínios de luxo desabando, instalados em áreas inadequadas.

E isso leva a uma outra questão, que é a gestão do solo urbano. E esse é um problema ainda não tocado. Fala-se em política de habitação, em construção de casas, em saneamento, em obra disso e daquilo, em dinheiro para isso e aquilo, mas a gestão e o planejamento do solo é um assunto que parece que não faz parte da agenda de política urbana no Brasil.

A gestão é precária e os efeitos disso é o que nós estamos vendo agora, e que se repete todos os anos e vai continuar se repetindo se esse modelo e essa lógica não for superada.